Pé de Letra: Literatura e Teatro: Brincando com as palavras

Sempre que leio um bom livro, como uma criança, me imagino dentro da história. E, ator que sou, penso em como seria essa mesma história no teatro.

A primeira vez em que percebi a diferença da linguagem escrita para a falada foi ainda menino, quando minha professora me deu a tarefa de ler um livro para depois contá-lo para os outros alunos da classe. Passado o primeiro instante de pânico diante da turma, me vi contando uma história incrível, porém ligeiramente diferente daquela que havia lido. Encantado com a reação de meus colegas, fui acrescentando pequenos detalhes, me demorando nas melhores passagens e omitindo aquelas que pouco me impressionaram na escrita. Quando terminei me dei conta de que tinha contado uma história diferente daquela do livro. Mas, ao mesmo tempo, havia sido absolutamente fiel às minhas impressões como leitor.

Havia uma diferença importante entre a minha leitura solitária do livro e a minha fala para as outras crianças: a presença! Assim também é com o teatro. Um texto dramatúrgico leva sempre em consideração a presença dos atores e do público. Presença e ação, sempre no presente, aqui e agora! E, portanto, jogo! A criança, melhor do que ninguém, joga, brinca o tempo todo. Seu aprendizado, sua relação com o mundo é sempre através do jogo.

Assim, ao realizar uma adaptação de um livro para o palco, é necessário levar em conta quem conta a história e para quem ela é contada, pois isso define escolhas. Dramaturgo, diretor e atores são todos co-autores de uma mesma história. Um ator em cena representa muito mais do que um personagem, ele é também um autor, como nas brincadeiras infantis. Quando brinca, uma criança é capaz de se colocar no lugar da boneca, da mãe da boneca, do cachorro da boneca, enfim, muda o ponto de vista o tempo todo, mas sem nunca esquecer de si mesma e do companheiro(a) de brincadeira.

No teatro o jogo é o mesmo. Como exemplo, imagine o livro de Clarice Lispector, “A vida íntima de Laura” adaptado ao teatro. Pode-se colocar no palco um ator narrando a história e, no instante seguinte transformá-lo em Laura, uma galinha, que em seguida irá conversar com um extraterrestre, que pode ser outro ator ou, quem sabe, alguém da plateia. Enfim, tudo depende das escolhas a serem feitas e isso muda tudo!

 

Mas tem uma coisa que jamais mudará: para contar uma história no teatro, basta que eu pense, ou melhor, brinque como uma criança. Aquela mesma criança em que me transformo ao ler uma história.

Roberto de Matos é escritor, ator e dramaturgo. Cursou Faculdade de Artes Cênicas e Ciências Biológicas na Unicamp. É integrante do coletivo Phila 7. Recebeu o Prêmio Funarte de Dramaturgia em 2005 com o texto A verdade relativa da coisa em si, em coautoria com Marcos Azevedo. Participou do projeto EVAKUIEREN Frankfurt, na Alemanha, com OPOVOEMPÉ, sob direção de Cristiane Zuan Esteves. Atualmente está no elenco do espetáculo A visita da velha senhora, de Dürrenmatt, no Teatro Popular do Sesi, na Av. Paulista, com Denise Fraga e direção de Luiz Villaça. Trabalhou com diversos diretores, entre os quais Márcio Aurélio, Felipe Hirsch, Cristiane Zuan Esteves, Gustavo Kurlat e Sérgio Carvalho. Atuou também nos premiados longas-metragens Sinfonia da metrópole (2014), de Juliana Rojas, O que se move (2012), de Caetano Gotardo, Trabalhar cansa (2011), de Marco Dutra e Juliana Rojas, e Cristina quer casar (2003), de Luiz Villaça. Em TV, atuou, entre outros, em vários episódios de Retrato falado, quadro do Fantástico na TV Globo, no seriado Que talento!, na Disney, e na minissérie Maysa, com direção de Jayme Monjardim, também na Globo. É autor do livro infantil Guarda-chuva? Guarda-chuva! pela Editora Adonis.

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Só há uma coisa que nos deixa mais felizes do que ajudar um livro a nascer. É fazer com que ele chegue a quem inspira o nosso jeito de ser e de fazer literatura. Desde que seja criança, nada mais importa: pode ser na idade, na alma, no coração... Mas tem que ser, de alguma forma, criança! Porque nossa literatura é movida pela pergunta curiosa que só ela é capaz de fazer. Pela entrega que só ela é capaz de oferecer. E, principalmente, pelo gesto de agradecimento, muitas vezes singelo, feito apenas com um olhar, por permitir que ela também faça parte das nossas histórias. É essa receptividade que nos move. É isso tudo que nos faz ajudar um livro a nascer. Fazemos literatura porque gostamos de fazer parte desse grandioso universo mágico de onde nascem as histórias. E de tudo o que esse mundo nos permite. Tudo! Fazemos livros para quem gosta de histórias e para que, cada vez mais, as crianças (na idade, na alma, no coração...) gostem de ler.

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